O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes, mas quase metade da matéria-prima vem de países envolvidos em conflitos. Em 2025, o país comprou 45,5 milhões de toneladas — volume recorde —, com 88% do total vindo do exterior.
A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel escancarou essa fragilidade. A paralisação de fábricas iranianas de ureia e a interrupção do fornecimento de gás israelense ao Egito reduziram em aproximadamente 20% a oferta global de fertilizantes nitrogenados.
Desde o início do conflito até 16 de abril, a ureia acumulou alta de 67%, segundo a StoneX Brasil. O impacto deve encarecer a próxima safra e, mais adiante, pressionar os preços dos alimentos no país.
Um mapa de dependência estrutural
Relatório da Cogo Inteligência em Agronegócios mostra que a vulnerabilidade brasileira não é novidade — mas ganhou contornos concretos. A dependência de nitrogênio está em torno de 95%: a ureia é quase totalmente importada, e a produção interna é travada pelo custo do gás natural, historicamente mais alto no Brasil do que em concorrentes como Rússia, Estados Unidos e países do Oriente Médio.
O potássio tem o maior grau de dependência: o país produz apenas 4% do que consome e importa os 96% restantes principalmente do Canadá, da Rússia e da Bielorrússia. Já a dependência de fósforo é menor, em torno de 72%, sustentada por reservas expressivas em Minas Gerais, Goiás e Ceará.
As sanções impostas à Rússia — responsável por cerca de 23% das importações brasileiras de fertilizantes — já haviam provocado um choque de preços. Na época, uma safra recorde e clima favorável evitaram o repasse ao consumidor. O cenário atual é diferente: a dependência, segundo a Cogo, “deixou de ser um risco teórico” e “se materializou com força em episódios recentes”.
O impacto já chegou ao campo: produtores de cana no interior paulista relatam alta dupla — no diesel e nos fertilizantes — com raiz no mesmo conflito que agora ameaça a próxima safra brasileira.
Projetos nacionais que ainda não decolaram
Para o potássio, o caso mais emblemático é a Mina de Autazes, no Amazonas, que poderia suprir até 20% da demanda nacional. O empreendimento enfrenta há anos um licenciamento ambiental complexo, com disputas envolvendo territórios indígenas e impactos sobre a região.
No nitrogênio, a Petrobras anunciou em janeiro de 2026 a retomada das Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados (FAFENs) da Bahia e de Sergipe, além da reativação da unidade Araucária Nitrogenados (ANSA), no Paraná. As unidades haviam sido vendidas em 2013, eliminando grande parte da capacidade interna de produção de ureia.
O fósforo apresenta o caminho mais viável para a autossuficiência. O complexo da EuroChem em Serra do Salitre (MG), inaugurado em 2024 com capacidade de 1 milhão de toneladas por ano voltadas ao mercado interno, e a mina de Itataia, em Santa Quitéria (CE), com reservas de 8,9 milhões de toneladas, apontam uma janela real de expansão.
O FMI já havia alertado que a guerra gerou um choque em cascata muito além do barril de petróleo — e o mercado de fertilizantes é um dos elos mais expostos dessa cadeia global.
